quinta-feira, 12 de setembro de 2013

SUS custeia 3.450 exames anuais de medula óssea em Teresina

“Pode não ser pro Caio, mas é pelo Caio”, diz Lara Rodrigues, mãe de um menino de cinco anos que há mais de três anos luta contra a leucemia. Novamente internado, Caio trata mais uma vez a doença para, no momento certo, fazer um novo transplante de medula óssea. “Ficamos muito emocionados sempre que nos procuram interessados em fazer o exame de compatibilidade”, relata.
A própria família da criança não recomenda, entretanto, que o teste seja feito para medir a compatibilidade com o Caio. Ao contrário, incentiva que o candidato a doador se cadastre no Registro Nacional de Doadores de Medula Óssea (Redome) porque a medula pode não ser compatível com o menino, mas o gesto simples pode ajudar a salvar outra vida.
No Piauí, há mais de 60 mil pessoas no Redome. Mas o registro conta, atualmente, com mais de três milhões de possíveis doadores. Embora o número seja expressivo, as chances de encontrar alguém compatível é de uma para cada cem mil pessoas. “A população brasileira é muito miscigenada, é mais complicado encontrar alguém compatível”, explica a médica hematologista Aline Cerqueira. Entre os europeus e asiáticos, por exemplo, as chances são melhores porque a população conserva um patrimônio genético.
O Caio está cadastrado no Registro Nacional de Receptores de Medula Óssea (Rereme), ou seja, naquele em que as pessoas procuram um doador não aparentado compatível. Nessa lista constam aproximadamente 1.200 cadastrados.
E você, quer ser um doador?
Movidos pelo sentimento de solidariedade, muitas pessoas buscam o Centro de Hematologia e Hemoterapia do Piauí (Hemopi) para se cadastrar. Para ajudar a salvar uma vida basta coletar 10 ml de sangue, ter entre 18 e 55 anos, nunca ter tido câncer e ser saudável. Até mesmo quem é diabético e hipertenso pode ser um doador de medula óssea, desde que esteja com a doença sob controle.
O processo é simples. Após a coleta de sangue é feito um exame chamado histocompatibilidade (HLA), que identifica as características genéticas do indivíduo e insere as informações no registro de doadores. Os dados são cruzados com o registro de receptores. Sempre que surgir um novo paciente, a compatibilidade será verificada. 
Uma vez confirmado um possível doador, o Hemocentro entra em contato com o candidato e questiona se ele quer ser mesmo um doador. Caso ele aceite, todas as suas informações e dúvidas serão esclarecidas e exames complementares serão realizados para então o procedimento ser agendado.
A coleta da medula óssea pode ser feita de duas maneiras: no centro cirúrgico ou através de um aparelho chamado aférese. Se o procedimento for realizado no centro cirúrgico, o paciente pode receber uma anestesia peridural ou geral e então uma agulha é inserida na bacia do paciente, onde o material é coletado. “É um procedimento seguro e em geral o paciente fica internado por apenas 24 horas”, explica Aline Cerqueira, garantido que é um procedimento simples. 

Já o transplante de medula óssea através de aférese assemelha-se a uma doação de sangue comum. O aparelho separa da corrente sanguínea as células necessárias para o transplante. Para esse procedimento o doador recebe um medicamento específico capaz de estimular a medula óssea a liberar essas células para a corrente sanguínea. 
A decisão do melhor procedimento fica a critério do médico, sob o consentimento do doador. A retirada das células para a doação é feita no hospital habilitado mais próximo da residência do doador. Assim que retiradas, as células são transportadas até o centro onde será feito o transplante. Passagens, hospedagem e procedimento cirúrgico são custeados pelo Ministério da Saúde. 
Cota de HLA
O exame HLA custa para o Sistema Único de Saúde (SUS) cerca de R$ 350. O detalhe é que, no caso de Teresina, o governo só paga 3.450 exames anuais, o que corresponde a aproximadamente R$ 1.207.000,00 . “Se ultrapassar esse volume a gente não faz mais o exame e aí o doador não entra no Registro Nacional. Por isso também que a gente não investe pesado em campanhas, porque ultrapassaríamos essa cota”, explica Amparo Costa, coordenadora do Banco de Medula Óssea do Hemopi, acrescentando que no vizinho Maranhão o número é ainda menor. Em São Luis, o governo custeia apenas 800 exames anuais. 
O mesmo procedimento na rede particular é bem mais caro. Os pais do Caio, por exemplo, pagaram cada um cerca de R$ 1.000 para descobrir se eles próprios não podiam doar a medula para o filho. O teste, entretanto, deu negativo.
#AjudeoCaio
A campanha que mobilizou os teresinenses a ajudar o Caio em 2012 recomeça esse ano com uma nova missão. Ano passado Caio recebeu a medula doada pelo irmão mais novo que, na época, tinha apenas sete meses de vida. O material era tão geneticamente parecido que não combateu as células cancerígenas que resistiram ao tratamento oncológico. A doença voltou. 
Agora, após cinco dias de três sessões seguidas de quimioterapia, o menino que enfrenta problema de gente grande encara o doloroso tratamento contando sempre com o apoio da família. “A nossa missão é amenizar o sofrimento dele. Ele sente dores, é claro, ele sente os efeitos do tratamento, como a falta de apetite e ânsia de vômito. Mas a gente faz festa até com a queda de cabelo. Ele é uma criança, sabe que está doente, mas ele só sabe o que precisa saber”, afirma Lara Rodrigues.
O Caio só poderá receber outra medula quando encerrar o tratamento. Segundo Lara, uma busca nacional, internacional e de cordão umbilical está sendo feita e alguns possíveis doadores já foram identificados. 
“Muitas pessoas me procuram e me dizem que sempre pensaram em doar, mas ficaram naquela zona de conforto. Meu filho fez essas pessoas saírem da zona de conforto e dizer ‘agora eu vou doar!’”, declara a mãe, reafirmando que todo mundo pode salvar uma vida. 

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